segunda-feira, 16 de maio de 2011

Semana 'Poesia': Auta de Souza

VERSOS A INAH

Na procissão


Passaste rindo... E o teu perfil modesto,
Cheio de graça e cheio de inocência,
À doce luz daquele riso honesto,
Tinha de um sonho a doce transparência.

Teus lindos olhos castos e sagrados,
Ingênuos como os olhos das crianças,
Pareciam dois céus imaculados,
Tão azuis como as minhas esperanças.

Desmanchou-se-te a trança côr de ouro
Enquanto assim passavas rindo, rindo...
E eu murmurei, ó meu gentil tesouro,
Fitando os olhos nesse olhar tão lindo:

"Ó tranças côr da alegria,
Olhar que um sorriso fêz:
Olhos de Santa Luzia,
Cabelos de Santa Inês!

Dourai, dourai meus abrolhos,
Ó tranças que o vento leva...
Olhos, ficai nos meus olhos,
Que êles são feitos de treva.

Cabelos cheios de luz,
Não fujam, que eu vou chorar...
Ai! lindos olhos azuis,
Descansem no meu olhar.

                 *
             *      *

Mas teus cabelos voaram.
Teus olhos... não mais os vi:
Os olhos que me fitaram,
As tranças por que morri...

Ó tranças côr da alegria,
Dourai, dourai meus abrolhos...
Olhos que a graça alumia,
Vinde morar nos meus olhos...


1º de janeiro de 1898.


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Meus amigos, escolhi esse texto para começar as minhas explanações por dois motivos:

1º) Coincidência ou não, minha mãe também se chama 'Auta' e também nasceu em 12 de setembro. Ambos, antes de conhecermos a fundo sua história, já éramos admiradores de sua obra, que por sinal não é considerada por nenhuma escola literária, considerada 'pobre', fato que me levou ao segundo motivo;

2º) Não será uma academia, embora eu estude Letras e também curta a questão da estética, que me definirá o que devo sentir e as formas pelas quais meu coração deverá responder, corresponder ou hostilizar - quando necessário. Isso reflete muito em minha postura de cantor. Não me prendo em estéticas, porque quando o coração é normal também não se prende.

          Enfim, a referida poetisa [*12/09/1876 (Macaíba/RN) - +07/02/1901 (Natal/RN)] cresceu com o espírito de luto, pois cedo tornou-se orfã de pai e mãe, e aos 14 anos teve seu irmão devorado pelas chamas. Após isso, descobriu que tinha uma doença que em breve a retiraria de nossa cena literária, como assim o foi. Isso justifica o seu olho crítico sobre o mórbido, embora não tivesse vasta cultura literária. E é isso o que eu acredito que seja essencial nela.

          Por isso, meus amigos, cada dia dessa semana mostrarei um poema extraído de seu livro "Hôrto"*, de cada fase de sua vida, ok?!

           Portanto, ótima semana para vocês e 'vida', acima de qualquer coisa!



Abson.

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P.S.: CANTORES ANIVERSARIANTES: Parabéns para Angela Maria (13/05) e Laura Pausini (hoje!), ehehehehe!

* REFERÊNCIA:
SOUZA, Auta de. Hôrto. 4. ed. Natal: Fundação José Augusto, 1970.

3 comentários:

  1. Belíssima iniciativa sua de postar a cada dia um texto da Auta de Souza.Não conhecia os pormenores trágicos de sua vida.Mas sua poesia é belíssima!.E concordo com você:o sentimento não pode nem deve se prender à estéticas pré-definidas,padrões pré-estabelecidos...O "ver e o sentir"poéticos são livres,devem estar despidos de todo preconceito e pré-julgamento.Parabéns pelo Blog!E ainda és cantor?Que maravilha!Ficarei atento ao seu Blog.Virei sempre aqui ler e comentar.Abraços,caríssimo!

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  2. Muito lindo! Vi e gostei muito e por coincidência sou Potiguá,há muitos anos no RJ,amo a poesia,os poetas,os compositores e cantores de nossa MPB,pena ser tão desvalorizados pelo Ministério de Cultura de nosso País,haja vista o que acontece neste exato momento com relação ao ECADE,que deveria lutar pelos direitos dos artistas e não usurpar-los,salopando-os.
    Parabéns e fique sempre conosco!
    Um grande abraço!
    Nalv@lmeida.

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  3. Foi uma susrpresa pra mim, quando olhei para a estatística do blog, mas tive hoje '120' mosdestos acessos, que sinto que foram do coração. Isso foi um presente nessa segunda-feira nublada aqui em Pernambuco.

    Eduardo, muito obrigado pelo seu comentário, mas acho que não fiz nada menos do que minha obrigação. É lindo termos consciência da vasta quantidade de escritores competentes, que conseguem nos levar para nós mesmos, criando esse elo com suas palavras.

    E quanto a você, Nalv@lmeida, fico contente demais por você (conterrânea da Auta) tenha curtido e concordo muito com você com relação a essa desvalorização, que não vem de agora (a própria Auta sofreu muito mesmo: imagine uma negra, 'metida a poetisa', em plenos fins de século XIX...), para nossa desgraça! Mas temos esperança e é isso o que importa, acima de qualquer obstáculo!

    Forte abraço para todos, e até amanhã!


    Abson.

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