terça-feira, 17 de maio de 2011

Semana 'Poesia': Auta de Souza (II)

BOÊMIAS


                                                                               A Rosa Monteiro



Quando me vires chorar,
Que sou infeliz não creias;
Eu choro porque no Mar
Nem sempre cantam as sereias.

Choro porque, no Infinito,
As estrêlas luminosas
Choram o orvalho bendito,
Que faz desabrochar as rosas.

Do lábio o consôlo santo
É o riso que vem cantando...
O riso do olhar é o pranto:
Meus olhos riem chorando.

O seio branco da aurora
Derrama orvalhos a flux...
O círio que brilha chora:
A dor também fere a luz?

Teus olhos cheios de ardores
Aninham rosas nas faces...
Que seria dessas flôres,
Responde, se não chorasse?

Sou môça e bem sabes que
A môça não tem martírios;
Se chora sempre, é porque
Pretende imitar os lírios.

Enquanto eu viver no mundo,
Meus olhos hão de chorar...
Ah! como é doce e profundo
Soluço eterno do Mar!

Do lábio o consôlo santo
É o riso que vem cantando...
O riso do olhar é o pranto:
Meus olhos riem chorando.


Jardim - 8-1897




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          Bem, amigos, acredito que a dor seja a escola mais fixa na vida de qualquer ser humano. E também creio que quem não a tem, ou a nega, jamais saberá dar valor ao sorriso. A força que a vida nos oferece é equivalente aos obstáculos, mas nos detemos ao 'priorizar o que nos incomoda'. 

          O que sinto nesse poema é essa dor explanada pelo que de mais simples e comum possuímos na terra: o martírio das rosas desdobrado por apenas uma rosa, a Monteiro (amiga da 'Auta' que não sabia rir, da qual  dizia "rir irresponsavelmente"). Quando o li pela primeira vez muito me identifiquei. Demorei muito tempo para saber o valor da dor para o riso e confesso que nessa madrugada, enquanto relia o livro 'Hôrto' e cheguei justamente nesse poema, passei minutos observando o verso "A dor também fere a luz?". Cheguei a uma conclusão: sim, fere. A escola da vida tem dessas. O sorrir é uma dádiva muito valosora para ser guardado, mas aprendi também que não deve ser empregado aleatoriamente. Garanto que não há nada melhor e mais prazeroso no mundo que a conquista desse verdadeiro sorrir. 

          Ainda estou buscando, ainda tenho meus olhos "rindo chorando", mas sou aluno aplicado e em breve serei aprovado na avaliação do sorrir. E a rosa, mesmo que bela e 'perigosa' - por causa dos espinhos, desabrocha com o orvalho e a atenção das estrelas. Gostaria sim de ter menos dor, ser mais leve como os lírios, mas quando reflete sobre tudo, inclusive sobre a inquietude do Mar (no poema, representando a vida cotidiana - porque lá "Nem sempre cantam as sereias", dores e males do mundo), volta a si e prefere ter seus olhos 'rindo chorando', aceitando a vida como é e tentando mudar para melhor o que puder, o que tiver em alcance. Eu também procuro fazer isso. Às vezes consigo, e vocês?!


Até amanhã!


Paz!


Abson.



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REFERÊNCIA:
SOUZA, Auta de. Hôrto. 4. ed. Natal: Fundação José Augusto, 1970.

2 comentários:

  1. Estou atento às suas publicações.Amei mais esse texto.Um dia todos nós,pelo menos os que tiverem sensibilidade e coragem,saberemos descobrir o sentido do "sorrir".E recnhecermos também o valor da "dor",sem nega-la,pois ela também é fonte de enriquecimento,por mais paradoxal que pareça.Parabéns,meu caro!Abraços!

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  2. Pois é, meu caro. É isso mesmo, sorrir (e no século XXI) é arte! A gente se vira como pode e, se houver uma parcela mínima de parcimônia e bondade no coração, consegue. Obrigado, mais uma vez, pela atenção e espero ser útil com os textos que exponho! Abração!


    Abson.

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