domingo, 22 de maio de 2011

Conto musical

Voltando pra casa 
(Preferencialmente, leia esse conto escutando a música contida nesse video acima)


– Não. Eu não quero.
– Esperava por isso... Eu tentei esmiuçar, desdobrar todas as possibilidades... Um café? Ao menos, um café?!
– Não, obrigado.
– Tem fogo?
– Aqui.
– É estranho demais: os dias se perdem no calendário e eu tô preso em alguns desses dias.
– ... (Observa o escuro da rua)
– Pelo visto, você só é fiel a ele, não?!
– Por que a pergunta?
– Eu tentei ser o que nunca consegui. Isso mostra que conhecemos muito mal o... (Soltando deliberadamente a fumaça) A...
– Seja mais claro, Artur. Não tô captando.
– Amor.
– Fabricado e automático, como ervilha em lata?
– Espontâneo, como as águas, e livre, como a loucura pensa que é.
– Volta pra casa, já ta muito tarde.
– Ok. Mas, ao menos – pela segunda vez, olha nos meus olhos... Tchau!
– Ok. (Olhando-lhe vagamente aos olhos) Tchau.

É curioso o ‘falar sozinho’, mas eu me acompanho melhor do que a minha solidão. Ela perfura o meu espírito com a lança da insônia, a matéria padece e o que me resta de pensamento possui um substantivo bem particular: D-Á-R-I-O. Mais curioso em tudo é o fato de, nas últimas manhãs – por volta das pioneiras horas, não conseguir ficar em total solidão. Melhor, ‘a sós’ com a minha casa, coisas inanimadas e impossíveis verbos agentes de quaisquer efeitos para alterarem o trajeto de esvaziamento da minha mente. E ela anda meio descompensada, pensando em uma mão esquerda levemente entrelaçada na minha mão direita. Apenas, com essa mão, consegui produzir palavras que atenuem a dor selvagem, sem medida, sobre a qual o meu enfermo espírito se debruça. Acho que a solidão é o cavaleiro, meus pensamentos sádicos são uma espécie de escudo, que fica vulnerável quando a lança da insônia o ataca sem trégua.
Eu, ainda assim, prefiro apostar nas peripécias proporcionadas pelo amor. Às vezes, inconsequentemente, reescuto uns discos meio antigos de amor puro, com brilho e defeitos, quase como o original. Semana retrasada, eu me deparei com a minha voz cantando um trecho de um desses discos, “Ah, como eu tenho me enganado, como tenho me matado por ter demais confiado nas evidências do amor” [1]. Pela primeira vez, nesses tempos, eu me perguntei: “Que amor?! Esses que vêem pelas ruas, da fábrica, como ‘ervilha em lata’?!” Coisas de Dário que são impregnadas na minha cabeça. Puxa vida, se eu pensar ao pé da letra, vou acabar chegando à conclusão de que o amor é uma condensação da ilusão pensada a dois... Será que é isso mesmo?! Amor: ilusão pensada a dois?! Deve haver algum meio-termo nesse jogo de ‘gostos’.
O conheci pelo jogo do ‘acaso’, onde os traços em comum – inicialmente – eram afunilados em timidez e olhos. Os vazios nos diálogos eram essenciais em nossa relação. Dias atrás, nossos olhos dialogaram e refletiram a luz bem peculiar do que não se substantiva, respectiva e concomitantemente. Estavam em conexão singular. No mesmo dia, conversamos e desabafamos sobre o nosso cansaço de alguns aspectos da vida. O dia e a proporção desse acaso nos estragaram. Não cobrei, em momento algum, reciprocidade. Em todos os instantes, poucos – por sinal, em que desfrutávamos do nosso especial diálogo éramos livres para a nossa timidez. Confesso que sempre esperei seu telefonema, foi uma presença marcante para aqueles meus dias vermelhos daquele verão maluco, entontecido, de 2000. Estávamos nas primeiras datas de nossas duas décadas – Dário, oito meses a menos que eu. Nós nos revimos e, simplesmente, cheguei à conclusão de sua inclusão, ou sua estadia, na minh’alma, em alguns pedaços do meu corpo quando o toco, em algumas coisas que ainda insisto em pronunciar, sem mais nem por que. O revi e me revi na sua vida:

– Dário!
– Oi, tudo bem? Desculpe-me, mas... Artur?! É você?!
– Até agora sim. (Riso no canto da boca) Como vai?! Tô prestes a perder a cabeça, de tanto cansaço...
– Ô, nem me fale! Tô consumido pelo tempo, o dia deveria ter, no mínimo, umas trinta horas.
– Mais umas seis... Pra nós...
– Já havia contabilizado o meu coração nessas “trinta” horas.
– Sério?!
– Sim.
– Então, apenas sinto porque ainda temos somente vinte e quatro.
– É. Ainda... (Olha o horizonte da rua comum)
– Ainda desperdiçando os seus olhos, cegando o nada?!
– Sim. O que você tem feito? Tem escutado muita música ainda?
– Não consigo deixar. É o cotidiano que me impõe isso. Caso contrário, não conseguiria suportá-lo.
– Ainda está só?
– Não, e você?
– Casado. (Suspira) Olha, gostaria de pegar um cinema amanhã?
– Pera, como assim?! Você não tá cas...

            Parecia novela, mas o telefone tocou. Era Marcos, o meu parceiro de dois anos. Sempre tentei amá-lo nesse tempo.

– Oi, meu bem!... sei bem, vamos nos ver mais tarde?... não, certo, entendo... eu entendo... já disse que não há problemas... (Olhando nos olhos de Dário, com os olhos da verdura dos vinte e poucos anos) um verbo que “sempre” cultivei bem foi o “entender”... (Mantendo o olhar) Olha, o que você tá escutando... Elis canta também... tempos atrás, também a escutava, não preciso mais... enfim, amanhã nos falaremos... não, você sabe que não será só isso... ok, um beijo.
– Era ele?
– Sim.
– Qual música da Elis você não precisa escutar mais?
– A que me leva a você, sempre.
            Nesse instante, o silêncio não foi o suficiente. Os olhares ficaram divergentes, e amor, apenas amor, não era o bastante, era preciso mais. Era necessário, no mínimo, anabolizantes de coragem. Dário, mais uma vez, retornou os seus olhos para mim, aproximou-se do meu corpo cujo espírito já se havia afastado – somente em decorrência desse “estreitamento”, fitou os meus imóveis lábios e sussurrou:

– Você não quer ser levado a mim?
– Faz tempo que isso aconteceu. Agora sim, tô voltando pra casa.

            Olhar, retina sobre retina, íris sobre íris, dilatação após dilatação, contração e novamente dilatação. Isso me trazia uma sensação de dor insuperável, um tom e lado amargo de ‘retrospecto’. Consegui me lembrar naquela hora, com suas mãos na minha cintura, como nos conhecemos, como nos afastamos, como estava e como agora estou. Tenho coragem para assumir o vazio, melhor, o abismo que a natureza do meu espírito criou em mim. É equivalente ao caminho do Inferno ao Purgatório, com direito ao Demônio como guia. Mesmo assim, ele me perguntou:

– Quer dizer que amanhã devo comprar apenas um ingresso?
– (Respiro fundo) Isso mesmo.
– Você não me ama mais?!

            Uma vez mais, naquela margem de anos obscuros, saberia que voltaria de novo pra casa. Com muito cuidado, cultivando a aura da despedida por mim imposta, nos acariciamos por volta de uns cinco eternos minutos. Não mais nos veríamos. Não mais saberíamos nada, um do outro e sobre nossas próprias vidas. Não respondi sua última pergunta na minha vida. Ele me deu o último beijo. Eu voltei pra casa.


[1] Meio-termo (Lourenço Baeta – Cacaso). In. : Transversal do tempo. REGINA, Elis. Rio de Janeiro: Philips, 1978.

Nenhum comentário:

Postar um comentário